Artigo: TEORIA DE GRUPOS EM PSICANÁLISE: A TÉCNICA DE GRUPOS OPERATIVOS DE PICHON RIVIÈRE
Por: Anderson Alves Rodrigues
RESUMO
O presente artigo apresenta, de forma sucinta, a articulação teórica entre a Psicanálise e a Técnica de Grupos Operativos desenvolvida por Enrique Pichon Rivière. O estudo discute como a vivência humana é intrinsecamente grupal e como a dinâmica psíquica individual reflete-se nos vínculos coletivos. Aborda-se a função do porta-voz, os vetores de operatividade (pertença, comunicação, cooperação e aprendizagem) e os obstáculos epistemológicos manifestos através dos medos básicos: o medo da perda e o medo ao ataque. A metodologia consiste em uma revisão teórica fundamentada em obras de Freud, Pichon Rivière, Laplanche e Pontalis, visando demonstrar a aplicabilidade da técnica operativa na resolução de conflitos e na promoção da aprendizagem dialética em contextos clínicos e institucionais.
Palavras-chave: Psicanálise. Grupos Operativos. Pichon Rivière. Aprendizagem. Resistência.
1. INTRODUÇÃO
O presente texto originou-se de um seminário homônimo realizado no espaço Caminhos na Psicanálise em maio de 2019. O objetivo central é apresentar, de forma sucinta, como a Teoria de Grupos — especificamente por meio da Técnica de Grupos Operativos de Pichon Rivière — e a Psicanálise constituem teorias que buscam contextualizar a vivência humana em sua complexidade vincular.
A compreensão do sujeito isolado é uma abstração, visto que a constituição psíquica ocorre invariavelmente no campo social. Como aponta a literatura clássica:
A psicologia individual concretiza-se, certamente, no homem isolado, e investiga os caminhos através dos quais ele tenta alcançar a satisfação dos seus instintos; porém, só muito poucas vezes e sob determinadas condições excepcionais lhe é dado prescindir das relações do indivíduo com seus semelhantes (FREUD, 1921).
2. A VIVÊNCIA HUMANA E A DIMENSÃO GRUPAL
Na análise com referencial psicanalítico, a relação entre analista e paciente denota a dinâmica das relações do analisando. É possível identificar a dinâmica da relação de objeto, a economia psíquica e os aspectos infantis. A análise vertical dessa dinâmica permite formular hipóteses sobre a inserção deste sujeito nos grupos em que participa.
Esta perspectiva fundamenta-se na premissa de que o ser humano é um ser vivente em grupos desde o nascimento; caso contrário, não sobreviveria. Trata-se de um ser necessitante dos cuidados de um grupo, condição por vezes inadmissível, mas insubstituível como verdade indelével. Na vida anímica individual, o “outro” aparece integrado como modelo, objeto, auxiliar ou adversário, tornando a psicologia individual, desde o princípio, uma psicologia social.
Internamente, o sujeito abriga uma grupalidade: o corpo que emite sinais ignorados, a autoimagem representada e o ideal de ser. Há também a percepção sobre o outro, muitas vezes reduzida a uma projeção ou “plateia”, revelando que o desconhecimento de si limita a compreensão real do próximo.
3. OS GRUPOS: HISTÓRIAS QUE SE CONVERGEM
Os grupos terapêuticos são estruturados para o tratamento de uma situação-problema comum. A expectativa é que, através de um porta-voz, trabalhe-se uma problemática compartilhada. Contudo, as identificações estão sob efeito do aparelho psíquico, onde o aparente nem sempre coincide com o sentido.
Ao comparar a terapia individual e a análise grupal, observa-se que a reação terapêutica negativa ou resistência individual equivale, no grupo, às dificuldades na aprendizagem. A resistência à mudança muitas vezes reside no medo de abandonar a imagem de “doente” e os ganhos secundários a ela associados.
Na técnica grupal, a inter-relação manifestada nos vínculos permite intervir através dos vetores: pertença, comunicação, cooperação e aprendizagem. O objetivo é a passagem de uma situação estancada (dilemática) para uma situação de movimento (dialética), rompendo estereótipos e permitindo o progresso na elaboração de novos problemas.
4. A ORIGEM DO GRUPO OPERATIVO
O Grupo Operativo é universal por permitir a abordagem de qualquer situação, seja de aprendizagem ou de ruptura de sintomas. A técnica surgiu da necessidade de tratamento de doentes mentais orientada por Pichon Rivière, fundamentando-se em quatro pilares iniciais:
- Ponto de partida: a visão dos sujeitos como enfermos;
- Aprendizagem de conceitos como insight e alienação através do grupo;
- Compreensão mútua e aprendizagem de técnicas de cuidado;
- Definição da Tarefa: o cuidado com os companheiros de internação.
A inclusão dos pacientes na estratégia grupal e a extensão do tratamento aos grupos familiares permitiram detectar fatores determinantes da enfermidade, consolidando a concepção social da saúde mental. A direção do trabalho visa à obtenção da realidade concreta e à correção da visão de mundo defendida por técnicas neuróticas e psicóticas.
4.1 Vetores do Desdobramento Técnico
A técnica divide-se em três momentos essenciais: Existente, Interpretação e Novo Emergente. A tarefa consiste em resolver situações estereotipadas (diplomáticas) que surgem da intensificação das ansiedades no processo de aprendizagem.
5. APRENDIZAGEM, RESISTÊNCIA E DINÂMICA PSICANALÍTICA
A aprendizagem gera angústia, potencializada no contexto grupal pelas diferenças individuais de ritmo e percepção. Para Pichon Rivière, a resistência à cura é, essencialmente, uma perturbação da aprendizagem. O “des-envolver” implica abandonar o conhecimento anterior para estar disponível ao novo.
O porta-voz é o veículo dessa qualidade nova (emergente). Ele capta o que está latente no grupo e o explicita através de sua sensibilidade pessoal. Quando vários porta-vozes convergem, o discurso comum sustenta o sentimento de pertença.
6. O IMPLÍCITO, O EXPLÍCITO E O EMERGENTE
A técnica de Grupos Operativos opera em dois níveis: o manifesto (explícito) e o latente (implícito). A técnica psicanalítica visa tornar consciente o inconsciente, movimento espiralado que ocorre analogamente na análise grupal. Na execução da tarefa, surgem obstáculos epistemológicos que devem ser tratados como emergentes.
A interpretação é operativa quando coincide com o existente no grupo, reduzindo a resistência e promovendo a mudança. O fazer consciente reside na ruptura desses obstáculos, permitindo que o grupo aborde o objeto de conhecimento de forma dialética.
7. RESISTÊNCIA À MUDANÇA E MEDOS BÁSICOS
A mudança é geradora de angústia e o novo é percebido como ameaçador. No ambiente corporativo ou clínico, a resistência à mudança é regida por dois medos básicos:
7.1 Medo da Perda: Sentimento de perder o status quo e os instrumentos de controle já conhecidos, mesmo que sofridos. A mudança exige resiliência para sair de uma situação segura rumo ao desconhecido.
7.2 Medo do Ataque: Sentimento de encontrar-se indefeso e vulnerável frente à situação nova, sem ferramentas de proteção. O sujeito utiliza a projeção para depositar suas angústias no agente causador da mudança.
A tarefa do coordenador é abrandar essa dificuldade, facilitando a visualização do implícito e transformando o obstáculo em aprendizagem operativa.
8. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Conclui-se que há uma congruência fundamental entre a Psicanálise e a Técnica de Grupo Operativo. Ambas convergem na compreensão de que o sujeito se constitui no vínculo e que a superação das resistências é o caminho para o crescimento. Onde há sujeito, há Psicanálise; onde há um grupo reunido para uma tarefa, há Técnica de Grupo Operativo.
REFERÊNCIAS
FREUD, Sigmund. Psicologia das massas e análise do ego. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1921.
LAPLANCHE, Jean; PONTALIS, Jean-Bertrand. Vocabulário da psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
PICHON-RIVIÈRE, Enrique. O processo grupal. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
Anderson Alves Rodrigues
Psicólogo Clínico e Organizacional formado pela Universidade Paulista (UNIP-2002),
Especialização em Coordenação de Grupos Operativos pelo Espaço Ser e Integrar.
Formação em Coaching Psychology pela Academia do Psicólogo,
Certificação em Scrum Master e Gestão de Projetos pela MindMaster,
Formação em Orientação de Carreiras: Escolhas e Transições pela PUC-SP,
Pós-Graduação em Aconselhamento Cristão – FTSA – Faculdade Teológica Sul-Americana