Psicanálise e Espiritualidade: O encontro entre a mente e o sentido 

Historicamente, vistas como campos opostos, a psicanálise e a espiritualidade têm encontrado novos caminhos de diálogo na contemporaneidade. Enquanto a primeira mergulha nos mecanismos do inconsciente para entender o sofrimento, a segunda busca um propósito que transcende a existência comum.

I- O legado de Freud e a Evolução do Olhar 

Sigmund Freud, conhecido como o pai da psicanálise, era cético em relação à religião, frequentemente descrevendo a crença espiritual como uma “ilusão” baseada no desamparo infantil e na busca por uma figura paterna protetora. Para ele, a ciência e a razão eram as ferramentas soberanas para decifrar a mente. Explana em seu livro:  

“Acolhemos as ilusões porque nos poupam sentimentos desagradáveis, permitindo-nos em troca gozar satisfações. Portanto, não devemos reclamar se, repetidas vezes, essas ilusões entrarem em choque com alguma parcela da realidade e se despedaçarem contra ela” (FREUD, 2013b, p. 218).

Nesse prisma, Freud estabelece uma conexão entre Édipo e Narcisismo ao interpretar o ideal religioso. Ele nota que o sentimento de desamparo que se origina na infância persiste até a vida adulta, principalmente frente às dificuldades sociais, logo, essa condição afetaria diretamente a necessidade de proteção do ser humano, que deveria ser experimentada através do pai terreno.

Assim, não foi difícil estabelecer uma analogia entre essas experiências, levando à criação da ideia de um “pai celestial”, concebido como uma figura forte que seja capaz de amenizar os perigos da existência, bem como atenuar a injustiça e a finitude da vida. Desta feita, diz:

“…a impressão terrificante de desamparo na infância despertou a necessidade de proteção (…) a qual foi proporcionada pelo pai; o reconhecimento de que esse desamparo perdura através da vida tornou necessário aferrar-se à existência de um pai, dessa vez, porém, um pai mais poderoso. Assim, o governo benevolente de uma Providência divina mitiga nosso temor dos perigos da vida”

Entretanto, sucessores como Donald Winnicott e Wilfred Bion ampliaram essa visão:

  • Winnicott explorou o “espaço transicional” e a capacidade de criar ilusões como algo vital para a saúde psíquica, permitindo que o ser humano lidasse com as questões do cotidiano de uma maneira mais leve. Aproximando a experiência criativa da espiritual.  
  • Bion introduziu o conceito de “O” (a verdade absoluta ou realidade última), que muitos analistas associam a uma dimensão mística ou inefável da experiência humana. Um convite para que a mente humana se disponha a explorar o desconhecido, o inexprimível e tudo aquilo que pode ser experimentado, mas nunca plenamente descrito.

II- A escuta do inefável na Clínica

A Psicanalista Déa Tardioli, no capítulo 14 do livro “Conexões entre Psicologia e Espiritualidade, Volume II”, traz uma reflexão sobre como a religião é um instrumento transformador, e dialoga entre o consciente e inconsciente, ajudando o indivíduo a evoluir sobre questões na qual a lógica racional não consegue alcançar. 

De maneira antagônica a religiosidade institucional, a espiritualidade na psicanálise é percebida como uma ferramenta para lidar com o vazio existencial e nossa consciência sobre finitude. É analisada como um campo onde o inconsciente é livre para manifestar seus íntimos desejos por conexão e preenchimento.

Outrossim, segundo Jacques Lacan defende que  “experimentam a ideia de que deve haver um gozo que esteja mais além”; ele conclui: “É isto que chamamos os místicos” (Lacan, 1972-73/2008b, p. 82). Aquilo que não pode ser totalmente definido pela linguagem.

Conclusão

Logo, a integração desses saberes não busca transformar o analista em um guia espiritual, mas sim reconhecer que a dimensão do sagrado é parte integrante da subjetividade humana. Ao acolher a espiritualidade do paciente, a psicanálise permite uma compreensão mais completa do ser, onde a cura não passa apenas pela resolução de traumas, mas também pela descoberta de um sentido para a vida.

Psicanalista Déa Tardioli 

RP 526 ANTPC

Contato: +1 (689) 267-1587

Instagram: @tardiolidea

Referências bibliográficas: 

FREUD, Sigmund. A interpretação dos sonhos. Rio de Janeiro: Imago, 1972.

FREUD, Sigmund. A transitoriedade. São Paulo: Companhia das Letras, 2013a.

FREUD, Sigmund. O futuro de uma ilusão. Rio de Janeiro: Imago, 1997. Tradução do original de 1927.

LACAN, Jacques. O seminário: Livro 20: Mais, ainda. Rio de Janeiro: Zahar, 2008b. Trabalho original publicado em 1972-1973.

PSICANÁLISE CLÍNICA. Psicanálise e Winnicott. Disponível em: <https://www.psicanaliseclinica.com/psicanalise-e-winnicott/>.  Acesso em: 16 abr. 2026.

SILVA, Silvana Souza. O “O” (zero) em Bion: verdade emocional, mistério e transformação psíquica. Disponível em: <https://www.silvanasouzasilva.com.br/post/o-ou-zero-em-bion-verdade-emocional-mist%C3%A9rio-e-transforma%C3%A7%C3%A3o-ps%C3%ADquica>. Acesso em: 16 abr. 2026.

TARDIOLI, Déa. Espiritualidade e psicanálise. In: FLÁVIO, Anderson (org.). Conexões entre psicologia e espiritualidade. v. 2. 1. ed. São Paulo: Scortecci, 2023.

VARGAS, F. M. Crença e ilusão: a crítica freudiana da religião. Humanidades em Diálogo, v. 7, p. 159-169, 2016.

Se esse conteúdo fez sentido pra você...

Talvez ele também faça sentido para alguém que você conhece.
Compartilhe com quem está passando por um momento difícil ou precisa de apoio emocional — às vezes, um simples envio pode ser o início de uma grande transformação.

Ou

© 2026 Tati Terezo – Todos os direitos reservados.